A chamada “greve de amamentação” pode ser um dos momentos mais angustiantes para mães que desejam manter a amamentação. Trata-se de um período em que o bebé, de forma súbita, recusa mamar, mesmo estando saudável e com fome. Pode durar desde algumas horas até vários dias, e é importante não confundir este comportamento com o desmame natural e gradual.
O que é uma “greve de amamentação”?
É uma recusa súbita e temporária da mama, sem causa aparente imediata. Acontece com frequência:
- Entre os 2 e os 3 meses (quando o bebé ainda mama em exclusivo ou numa fase em que toma suplemento de fórmula ou de leite materno em biberão);
- Entre os 8 a 12 meses (tendo já iniciado a alimentação complementar e, geralmente, tendo dentes a nascer ou estando numa fase aguda de doença).
Nessa fase, o bebé ainda não está pronto para substituir o leite materno, mas pode reagir a mudanças no ambiente, stress ou desconforto físico com essa recusa temporária.
Causas possíveis de uma greve de mama:
- Stress ou ansiedade da mãe (mudanças familiares, trabalho, cansaço);
- Alterações na rotina do bebé (regresso ao trabalho da mãe, nova creche/cuidador, menos tempo juntos);
- Nascimento de dentes;
- Doença ou desconforto (otites, aftas, candidíase oral, vacinação recente);
- Queda da produção de leite (por longos intervalos entre mamadas ou uso de biberão);
- Uso frequente de chupeta ou distrações durante a mamada.
O que fazer numa greve de mama?
- 🕊 Ser paciente e persistente — o bebé não está a rejeitar a mãe, mas sim a manifestar algo.
- ❗ Nunca forçar a mamar, mas continuar a oferecer gentilmente.
- 👩⚕️ Consultar um profissional de saúde para excluir causas clínicas.
- 🤱 Aumentar o contacto pele-a-pele — toma banho com o bebé, faz cama partilhada, oferece o teu colo e presença.
- 🛏 Dormir juntos (co-sleeping) pode facilitar mamadas durante o sono. Atenção: é importante fazê-lo em segurança. Consulta o folheto mais recente (2022) da UNICEF sobre este tema: https://www.unicef.org.uk/babyfriendly/wp-content/uploads/sites/2/2018/08/Caring-for-your-baby-at-night-web.pdf
- 👣 Dar de mamar em movimento — a caminhar com o bebé num porta-bebés ergonómico ou enquanto o embalas.
- 🧘♀️ Criar um ambiente calmo, com meia-luz e livre de distrações.
- 🍼 Evitar biberões ou chupetas que possam confundir a sucção.
- 🧑🍼 Se necessário, extrair leite para manter a produção e oferecer com copinho ou colher.
- Pedir ajuda a uma consultora de amamentação quando se prolongar por mais de 24 horas.
O que não fazer:
🚫 Iniciar fórmula ou leite materno extraído em biberão sem necessidade clínica.
🚫 Oferecer chupeta para acalmar em vez da maminha.
🚫 Introduzir ou aumentar a oferta de laticínios como substituto da amamentação.
🚫 Protelar o pedido de ajuda na amamentação e protelar a avaliação clínica, que é importante para descartar doença no bebé.
Uma greve de mama pode levar ao desmame precoce?
Sim. É mais provável que a amamentação seja interrompida antes do desejado quando:
- O bebé faz menos de 4 a 5 mamadas por dia antes dos 12 meses;
- Introduzem-se tetinas (bebés que usam mamilos de silicone para mamar, chupeta ou biberão);
- São introduzidos outros alimentos muito cedo ou substituem-se mamadas por outros alimentos de forma sistemática;
- Há horários rígidos e baixa frequência de mamadas;
- A mãe deixa de oferecer frequentemente ou não responde aos sinais de fome do bebé.
Palavras finais
Durante uma greve de mama, o mais importante é manter o vínculo, a escuta e o acolhimento emocional. O bebé precisa sentir-se seguro, respeitado e acompanhado. A maioria das greves resolve-se espontaneamente, especialmente se não forem feitas substituições precipitadas.
Se és profissional de saúde, este é um momento-chave para apoiar a mãe com empatia e conhecimento técnico.
Se é mãe e estás a passar por isto, sabe que não estás sozinha — procurar apoio especializado pode fazer toda a diferença.
Autora: Ana Antunes, consultora de amamentação e doula | Última revisão: maio de 2025
